{"id":426,"date":"2026-03-08T18:45:22","date_gmt":"2026-03-08T18:45:22","guid":{"rendered":"https:\/\/asso-apps.org\/?p=426"},"modified":"2026-03-08T18:45:22","modified_gmt":"2026-03-08T18:45:22","slug":"o-que-o-capital-traz-a-psicanalise-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/2026\/03\/08\/o-que-o-capital-traz-a-psicanalise-social\/","title":{"rendered":"O QUE \u201cO CAPITAL\u201d TRAZ \u00c0 PSICAN\u00c1LISE SOCIAL"},"content":{"rendered":"\n<p id=\"viewer-foo\">Ce que \u00ab&nbsp;Le Capital&nbsp;\u00bb apporte \u00e0 la psychanalyse sociale<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6a35q\">Traduction : Maico Fernando Costa<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3tncj\">Ce texte est celui de la conf\u00e9rence faite \u00e0 l&rsquo;Universit\u00e9 Lomonosov \u00e0 Moscou le 20&nbsp;mai 2017 pour travailler les 150 ans du Capital.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bnqa1\">\u200bIl a \u00e9t\u00e9 publi\u00e9 le 5 mai 2018 sur le webmagazine Marximum pour les 200 ans de la naissance de Marx afin de souligner l&rsquo;importance de ce dernier pour un travail psychanalytique social novateur et n\u00e9cessaire.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f92h3\">Il a \u00e9t\u00e9 traduit par Maico Fernando Costa membre de l&rsquo;APPS que nous remercions et saluons&nbsp; \u00e0 l&rsquo;occasion de cette publication dans son combat pour l&rsquo;\u00e9mancipation r\u00e9volutionnaire au Br\u00e9sil<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/ede9f5_bde38155e5154279ae33d8f8fb2a7f1e~mv2.png\/v1\/fill\/w_1040,h_677,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto\/ede9f5_bde38155e5154279ae33d8f8fb2a7f1e~mv2.png\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"viewer-difab\">\u00ab\u00a0Vertige, l&rsquo;escalier magique &#8211;<em>L\u00e9on Spilliaert &#8211; <\/em>1908 &#8211; Domaine public<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dtd2v\">Este \u00e9 um texto derivado de uma palestra ministrada na Universidade Lomonosov em Moscou no dia 20 de Maio de 2017 para debater os 150 anos de \u201cO Capital\u201d. Foi publicado em 5 de Maio de 2018 na revista eletr\u00f4nica \u201cMarximum\u201d para o 200o anivers\u00e1rio do nascimento de Marx, a fim de sublinhar a import\u00e2ncia de Marx para um trabalho psicanal\u00edtico inovador e necess\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bgu2k\">Cento e cinquenta anos ap\u00f3s a sua publica\u00e7\u00e3o, gostaria de fazer uma proposta relativa \u00e0 leitura de \u201cO Capital\u201d que poderia aparecer em um primeiro tempo, ins\u00f3lita. Mantenho que o principal trabalho de Marx \u00e9 de import\u00e2ncia fundamental e crucial para a psican\u00e1lise. Indo mais longe, mantenho que Das Kapital \u00e9 o ponto de base daquilo que chamamos \u201cPsican\u00e1lise Social\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-a69ue\">A psican\u00e1lise social, tal como a defini, difere da psican\u00e1lise cl\u00e1ssica ao tomar como seu objeto principal o social. O seu conceito fundamental \u00e9 a transfer\u00eancia social (1). O campo de interven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise social \u00e9, evidentemente, a an\u00e1lise dos processos sociais e pol\u00edticos mas, considerando o indiv\u00edduo como um ser social, seria um erro acreditar que a psican\u00e1lise individual n\u00e3o est\u00e1 no seu campo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1c22t\">Pelo contr\u00e1rio, trata-se de poder transformar as pr\u00e1ticas e as teorias que atualmente reinam no campo da chamada psican\u00e1lise individual, a fim de responder \u00e0s necessidades atuais. Esta refer\u00eancia ao social \u00e9 baseada sobre o aporte fundamental de Marx: o ser humano \u00e9 um ser social. O desafio \u00e9, portanto, fazer uma revolu\u00e7\u00e3o no mundo psicanal\u00edtico atual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3vh50\">&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2co9u\">1. A import\u00e2ncia da primeira se\u00e7\u00e3o do Livro I de \u201cO Capital\u201d para a psican\u00e1lise social&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cgfa1\">A primeira se\u00e7\u00e3o do Livro I tem sem d\u00favida uma especificidade em \u201cO Capital\u201d e na obra de Marx: ela \u00e9 dif\u00edcil, e Marx indica claramente esta caracter\u00edstica no seu Pref\u00e1cio. Isto resultou durante muito tempo numa tend\u00eancia para evitar a sua an\u00e1lise. Tem havido uma tend\u00eancia filos\u00f3fica para ir \u00e0 Se\u00e7\u00e3o II que trata mais diretamente da explora\u00e7\u00e3o capitalista e dos seus mecanismos. Esta foi, por exemplo, a posi\u00e7\u00e3o de Louis Althusser.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-chciv\">Pelo contr\u00e1rio, penso que \u00e9 muito importante ter em conta o desejo inicial de Marx de colocar esta se\u00e7\u00e3o \u201cMercadorias e Dinheiro\u201d em primeiro lugar e indicar no seu Pref\u00e1cio que s\u00f3 ela nos permite compreender o que \u00e9 a economia. Acrescentaria que o seu estudo torna poss\u00edvel compreender como Marx na sua abordagem cient\u00edfica procedeu para analisar a economia, os processos sociais e ainda mais as rela\u00e7\u00f5es sociais entre indiv\u00edduos. H\u00e1 um m\u00e9todo de Marx que \u00e9 revelado na sua an\u00e1lise da realidade social. No seu pref\u00e1cio escreve \u201cA forma do valor realizada sob a forma de dinheiro \u00e9 algo muito simples. No entanto, a mente humana h\u00e1 mais de dois mil anos procura em v\u00e3o penetrar o seu segredo\u201d. Trata-se de fato de perfurar um segredo, o segredo do modo de produ\u00e7\u00e3o: produzir, consumir, trocar o que \u00e9 produzido. Marx falar\u00e1 na Se\u00e7\u00e3o II sobre a transfer\u00eancia de valores, Wert\u00fcbertragung, e isto est\u00e1 intimamente relacionado com o m\u00e9todo de an\u00e1lise do segredo, e este termo de transfer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 \u201csem valor\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o psicanal\u00edtica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bqgij\">Mais importante para os nossos prop\u00f3sitos, esta Se\u00e7\u00e3o I diz respeito \u00e0 an\u00e1lise fundamental da civiliza\u00e7\u00e3o, aquela em que vivemos hoje, a civiliza\u00e7\u00e3o capitalista. Neste contexto preciso, citarei o historiador da filosofia Fran\u00e7ois Ch\u00e2telet: \u201cA Se\u00e7\u00e3o I \u00e9 uma teoria da civiliza\u00e7\u00e3o (tal como elaborada por Rousseau e Freud)\u201d, esta Se\u00e7\u00e3o I tamb\u00e9m lan\u00e7a \u201cos fundamentos de uma teoria revolucion\u00e1ria da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (2).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9qob5\">Marx insiste efetivamente na forma de valor e na sua rela\u00e7\u00e3o com o funcionamento da sociedade, o funcionamento econ\u00f4mico e as rela\u00e7\u00f5es sociais, as rela\u00e7\u00f5es entre os seres humanos. Nesta primeira se\u00e7\u00e3o, muitos pontos de an\u00e1lise s\u00e3o colocados numa posi\u00e7\u00e3o de homologia entre \u201crela\u00e7\u00f5es de troca entre mercadorias\u201d e \u201crela\u00e7\u00f5es humanas\u201d. Marx deixa isto claro numa nota de rodap\u00e9 do par\u00e1grafo sobre o conte\u00fado da forma do valor relativo: \u201cEm alguns aspectos, \u00e9 o mesmo para o homem e para a mercadoria\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2o5e1\">O objeto da an\u00e1lise de Marx nesta primeira parte de \u201cO Capital\u201d \u00e9 claramente a an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es que os indiv\u00edduos tecem no social, as fontes que os tornam intelig\u00edveis, e este \u00e9 um&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6kh6d\">elemento crucial a ter em conta hoje para uma psican\u00e1lise que n\u00e3o est\u00e1 envolvida na psicopatologia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5oitl\">2. Contribui\u00e7\u00f5es e aporias da psican\u00e1lise cl\u00e1ssica&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2bar5\">Freud estabeleceu uma pr\u00e1tica de encontros humanos espec\u00edficos, instituindo, de acordo com Fran\u00e7ois Ch\u00e2telet, uma revolu\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais, uma nova rela\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica. O seu instrumento consistia numa pr\u00e1tica humana de \u201cdizer no div\u00e3 o que lhe vem \u00e0 cabe\u00e7a e associar livremente as palavras\u201d. Esta pr\u00e1tica foi nomeada por Freud, transfer\u00eancia, \u00dcbertragung. Este termo \u00e9 frequentemente reduzido \u00e0 quest\u00e3o do amor, amor de transfer\u00eancia, amor endere\u00e7ado ao saber e \u00e0 sua suposi\u00e7\u00e3o. Insisto da minha pr\u00e1tica que esta transfer\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m uma transfer\u00eancia de palavras, de imagens e de sensa\u00e7\u00f5es corporais que ocorrem no que a repeti\u00e7\u00e3o de encontros produz: o amor e o \u00f3dio. Insisto neste ponto porque existe de fato no in\u00edcio uma an\u00e1lise freudiana que faz uma revolu\u00e7\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o com a abordagem psicol\u00f3gica ou psiqui\u00e1trica. O fil\u00f3sofo Georges Politzer sublinha-o na sua obra fundamental \u201cCr\u00edtica dos Fundamentos da Psicologia\u201d em 1928: a psican\u00e1lise freudiana traz uma nova inspira\u00e7\u00e3o, a do concreto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4kgqt\">Politzer, que permanece atualmente o cr\u00edtico inigual\u00e1vel da psican\u00e1lise freudiana, faz uma observa\u00e7\u00e3o crucial nesta fase: s\u00f3 as abordagens cl\u00e1ssicas podem dar sentido ao inconsciente. O inconsciente freudiano s\u00f3 pode fazer sentido a partir da psicologia cl\u00e1ssica abstrata, tal \u00e9 o obst\u00e1culo que alimenta a aporia freudiana. Lacan criticar\u00e1 o inconsciente das profundezas de Freud, metaf\u00edsico, e dar\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o materialista orientada para a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o saber e sua nega\u00e7\u00e3o, o insabido. O inconsciente se torna um saber insabido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fs257\">Lacan diz ter lido \u201cO Capital\u201d no metr\u00f4 aos 20 anos de idade. Ele sublinhou o quanto a obra de Marx tinha antecipado Freud e ele pr\u00f3prio em diferentes quest\u00f5es: o sintoma, o fetichismo, o est\u00e1dio do espelho, o valor. Ele utilizar\u00e1 o conceito de mais-valor para construir o seu conceito fundamental de mais-de-gozar, numa posi\u00e7\u00e3o de homologia, disse ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6ei9i\">A import\u00e2ncia de Lacan na psican\u00e1lise social \u00e9 certa: ele coloca Marx no campo da psican\u00e1lise, ou seja, no campo da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica. Penso que Lacan continuar\u00e1 famoso por esta raz\u00e3o e nenhuma outra: por ter introduzido Marx! A raz\u00e3o da aporia de Jacques Lacan \u00e9 simples: ele permanece numa abordagem filos\u00f3fica da psican\u00e1lise, em transcend\u00eancia, tal como Hegel permanece numa filosofia transcendental da Hist\u00f3ria. Ele ser\u00e1 hegeliano at\u00e9 ao fim do&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fp4c\">seu ensino e falha na sua elabora\u00e7\u00e3o, a invers\u00e3o feita por Marx em rela\u00e7\u00e3o a Hegel. Isto traz portanto a ele um limite e \u00e9 necess\u00e1rio medir a periculosidade de se colocar como primado a transforma\u00e7\u00e3o da vida dos seres humanos em conceitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8kij1\">3. A import\u00e2ncia do conceito de Wert\u00fcbertagung&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fs258\">Freud a partir da transfer\u00eancia, \u00dcbertragung, trabalha sobre a quest\u00e3o do que n\u00e3o queremos saber sobre o que faz a nossa vida ps\u00edquica funcionar. Marx a partir da transfer\u00eancia de valores Wert\u00fcbertragung trabalha sobre a quest\u00e3o de n\u00e3o querermos saber disso que faz a nossa vida social funcionar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9efc3\">Esta homologia que proponho associa diretamente a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica \u00e0 pr\u00e1tica social. De modo algum acrescenta Marx \u00e0 psican\u00e1lise ou Freud ao marxismo. Esta homologia n\u00e3o \u00e9 Freud-Marxista. A psican\u00e1lise social enfatiza antes a base social na funda\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, tomando como ponto de partida a proposta apresentada por Marx: o ser humano \u00e9 um ser social. Este ser social est\u00e1 envolvido nas rela\u00e7\u00f5es sociais e estas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o analisadas de uma forma muito s\u00fatil na Se\u00e7\u00e3o I.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1hkes\">Extraio do trabalho de Marx o fato de que quando ele fala da rela\u00e7\u00e3o entre mercadorias, no quadro do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, ele tamb\u00e9m fala das rela\u00e7\u00f5es entre os seres sociais. Sublinho que isto \u00e9 feito com a ferramenta conceitual espec\u00edfica desta se\u00e7\u00e3o sobre a mercadoria: o conceito da forma-valor. Assim, quando evoca no cap\u00edtulo sobre a forma-valor relativa que \u201cGra\u00e7as \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de valor, a forma natural da mercadoria B torna-se assim a forma valor da mercadoria A, ou ainda, o corpo da mercadoria B torna-se o espelho do valor da mercadoria A\u201d, ele especifica bem: \u201cEm alguns aspectos, \u00e9 o mesmo para o homem e para a mercadoria. Como n\u00e3o vem ao mundo munido de um espelho, nem da f\u00f3rmula do Eu fichtiniano, o homem se olha primeiro no espelho de um outro homem\u201d (3).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cfugu\">Os exemplos abundam, tornando poss\u00edvel tornar as homologias aplic\u00e1veis \u00e0 pr\u00e1tica psicanal\u00edtica. Assim, na transfer\u00eancia de valores entre mercadorias A e B, Marx desliza para as rela\u00e7\u00f5es humanas: \u201cPor detr\u00e1s da sua alma bem abotoada, o linho reconheceu o seu belo parente, a alma valor. O casaco, contudo, n\u00e3o pode representar um valor face ao linho, sem que o valor para este \u00faltimo tome a forma de um casaco ao mesmo tempo. Assim, o indiv\u00edduo A n\u00e3o pode relacionar-se com o indiv\u00edduo B como com uma Majestade, sem que a Majestade&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-50n40\">tome ao mesmo tempo para A a forma corp\u00f3rea de B, e assim mudando a forma do seu rosto, do seu cabelo e muitas outras coisas, cada vez que se muda o bom pai do povo\u201d (4).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fcuk7\">A contribui\u00e7\u00e3o de Marx \u00e9 crucial para a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica individual e coletiva. A an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o entre mercadorias aplicada aos seres sociais diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de igualdade baseada na rela\u00e7\u00e3o de valor e, portanto, nas diferen\u00e7as sociais. A transfer\u00eancia psicanal\u00edtica diz respeito ao que engana, ao que est\u00e1 ocultado. A transfer\u00eancia de valor sobre um produto na l\u00f3gica capitalista tamb\u00e9m envolve engano: o que engana, o que est\u00e1 oculto na rela\u00e7\u00e3o de valor entre os seres humanos. Tamb\u00e9m aqui Marx \u00e9 o precursor desta concep\u00e7\u00e3o de transfer\u00eancia que ser\u00e1 desenvolvida por Lacan.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-302ka\">4. O primado do valor de troca e as suas consequ\u00eancias na transfer\u00eancia de valores&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6smt2\">A rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica entre as mercadorias implica estudar as rela\u00e7\u00f5es entre a troca e o valor. A troca implica o princ\u00edpio da igualdade entre produtos, mesmo que estes produtos sejam produtos de diferentes trabalhos. A troca induz o valor. No cap\u00edtulo \u201cO car\u00e1ter fetiche da mercadoria e o seu segredo\u201d Marx multiplica as posi\u00e7\u00f5es hom\u00f3logas com a psican\u00e1lise. Fala de segredo, de fantasmagoria, de transforma\u00e7\u00e3o. O que alimenta aquilo a que chamei de transfer\u00eancia social mas tamb\u00e9m a transfer\u00eancia psicanal\u00edtica \u00e9 claramente descrito: o jogo de suposi\u00e7\u00e3o e atribui\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o com o oculto e com o n\u00e3o querer saber, o enganoso, o desfrutador e o insabido. Vou simplesmente extrair esta frase:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-df4qb\">N\u00e3o \u00e9 portanto porque os produtos do seu trabalho s\u00f3 lhes valem a pena como envelopes materiais de um trabalho humano diferenciado que os homens estabelecem rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas de valor entre as coisas. \u00c9 o inverso. \u00c9 colocando em troca os seus diversos produtos como iguais a t\u00edtulo de valores que colocam os seus trabalhos diferentes como iguais entre si a t\u00edtulo de trabalho humano. Eles n\u00e3o o sabem, mas eles o fazem praticamente. O valor, portanto, n\u00e3o traz escrito na testa o que ele \u00e9. Pelo contr\u00e1rio, o valor transforma qualquer produto do trabalho num hier\u00f3glifo social. Subsequentemente, os homens procuram decifrar o significado do hier\u00f3glifo social, penetrar o segredo do seu pr\u00f3prio produto social, porque a determina\u00e7\u00e3o dos objetos de uso como valores \u00e9 a sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o social, tal como a linguagem \u00e9 (5).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-514p2\">\u00c9 portanto a an\u00e1lise desta rela\u00e7\u00e3o entre a troca, o valor e a igualdade que diz respeito ao trabalho e, portanto, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o, de homic\u00eddio, que se analisa o engano em que as&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b5pco\">rela\u00e7\u00f5es humanas e a sua viol\u00eancia s\u00e3o produzidas. Trata-se de insistir sobre a parte seguinte da frase precedentemente citada para encontrar uma chave de interpreta\u00e7\u00e3o:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6kcs6\">\u201c\u00c9 colocando na troca seus diversos produtos como iguais a t\u00edtulo de valores que eles postulam os seus trabalhos diferentes como iguais entre si e a t\u00edtulo de trabalho humano. Eles n\u00e3o o sabem, mas eles o fazem praticamente\u201d. \u00c9 a rela\u00e7\u00e3o de troca e de igualdade atrav\u00e9s do valor e a sua rela\u00e7\u00e3o que produz o hier\u00f3glifo social e a rela\u00e7\u00e3o com o trabalho de interpreta\u00e7\u00e3o. A forma de valor tem um papel crucial nesta l\u00f3gica. Ponto revolucion\u00e1rio para a quest\u00e3o psicanal\u00edtica: o inconsciente, o n\u00e3o-saber est\u00e1 do lado do fazer: \u201cEles n\u00e3o o sabem mas eles o fazem praticamente\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-25o8n\">O inconsciente est\u00e1 do lado do que fazemos, produzimos na vida social, e, o trabalho psicanal\u00edtico, por sua vez, deve come\u00e7ar desse dado. Marx parte assim do concreto do gozo nas rela\u00e7\u00f5es sociais, do que elas produzem e dos seus efeitos nas rela\u00e7\u00f5es entre seres humanos. Ele d\u00e1 a orienta\u00e7\u00e3o crucial para analisar transfer\u00eancias singulares no que estabelece a rela\u00e7\u00e3o de troca e igualdade, da qual se pode tirar uma li\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria na pr\u00e1tica da interpreta\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8l2gv\">5. As consequ\u00eancias da contribui\u00e7\u00e3o de Marx para a psican\u00e1lise social&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-22bqq\">Marx na primeira se\u00e7\u00e3o de \u201cO Capital\u201d fornece assim \u00e0 an\u00e1lise dos fatos sociais, atrav\u00e9s da forma valor, uma contribui\u00e7\u00e3o decisiva para a teoria e a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise. O que acabamos de salientar \u00e9 a forma l\u00f3gica da mat\u00e9ria em jogo na l\u00f3gica da Wert\u00fcbertragung.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-77tgm\">Marx estabelece um processo de objetiva\u00e7\u00e3o do fato social. A transfer\u00eancia psicanal\u00edtica \u00e9 um fato social. Ao trabalhar as rela\u00e7\u00f5es entre troca, igualdade, trabalho, valor e forma, conseguimos separar a objetifica\u00e7\u00e3o social do fantasmag\u00f3rico em que o fen\u00f4meno religioso est\u00e1 alojado. Este \u00e9 um ponto de refer\u00eancia essencial na pr\u00e1tica psicanal\u00edtica. \u00c9 tamb\u00e9m uma b\u00fassola importante para lan\u00e7ar luz sobre o fen\u00f4meno religioso na pr\u00e1tica psicanal\u00edtica cl\u00e1ssica e assim modificar esta \u00faltima.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-biihe\">Com o conceito de transfer\u00eancia de valores, de formas valores, \u00e9 poss\u00edvel propor uma an\u00e1lise das formas de valor contidas nas palavras, nas imagens e nas sensa\u00e7\u00f5es corporais nos seres sociais. Isto pode ser aplicado tanto no coletivo como no individual. A partir do trabalho realizado pelo fil\u00f3sofo marxista Georges Politzer sobre o nazismo, pude analisar o engano comportado pelos valores do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial e o seu funcionamento: valor \u201csangue\u201d contra valor \u201couro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-43o1r\">Tamb\u00e9m fui capaz de fornecer uma l\u00f3gica para o funcionamento do fen\u00f4meno transidentit\u00e1rio. Ao substituir \u201ccasaco\u201d por \u201ccasaco de mulher\u201d e \u201clinho\u201d por \u201cpele\u201d no texto de Marx j\u00e1 citado em \u201cO Capital\u201d, obtemos a l\u00f3gica do fen\u00f4meno transidentit\u00e1rio: \u201cO casaco, contudo, n\u00e3o pode representar qualquer valor face ao linho, sem que o valor para esta \u00faltima tome ao mesmo tempo a forma de um casaco\u201d (6), transforma-se em \u201cO casaco de mulher, contudo, n\u00e3o pode representar qualquer valor face \u00e0 pele, sem que o valor para esta \u00faltima tome ao mesmo tempo a forma de um casaco de mulher\u201d (7).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7qtrd\">Esta l\u00f3gica torna poss\u00edvel explicar e tornar intelig\u00edvel o fen\u00f4meno transidentit\u00e1rio em contraste com a psican\u00e1lise cl\u00e1ssica que fala de doen\u00e7a mental num quadro muito retr\u00f3grado sobre este assunto e dificulta o tratamento de transforma\u00e7\u00e3o hormonal-cir\u00fargica que empurra para a vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dn5p6\">Com \u201cO Capital\u201d, aparece portanto evidente o papel emancipat\u00f3rio de Marx. O que \u00e9 ignorado por Lacan nas suas constru\u00e7\u00f5es hom\u00f3logas diz respeito a todas as consequ\u00eancias de tomar em considera\u00e7\u00e3o o assassinato do prolet\u00e1rio no fundamento do mais-valor, bem como o conceito de sub-humano que lhe est\u00e1 ligado. Isto obstrui as perspectivas mais criativas e as mais libertadoras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-218at\">As perspectivas de emancipa\u00e7\u00e3o social s\u00e3o grandes com a psican\u00e1lise social, que constr\u00f3i uma nova rela\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica ao assassinato e que, contra o conceito de aliena\u00e7\u00e3o mental, declara: \u201cN\u00e3o h\u00e1 doen\u00e7a mental mas sim um sofrimento do social no que \u00e9 ps\u00edquico\u201d, tomando em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o do sofrimento humano a orienta\u00e7\u00e3o dada por Marx nos seus manuscritos de 1844: \u201c(&#8230;) entendido de uma forma humana, o sofrimento \u00e9 um gozo que o homem tem de si pr\u00f3prio\u201d (6).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6ccq3\"><strong>Dr. Herv\u00e9 Hubert<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6sppk\">Psiquiatra, Psicanalista Moscou, 20 de maio de 2017.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-af10p\">(1) http:\/\/cocowikipedia.org\/index.php?title=Transfert_social<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6ae28\">(2) Fran\u00e7ois Ch\u00e2telet, Perfil de uma obra O Capital Marx, Hatier, Paris, 1975, p. 31 et 38 (3) Karl Marx, O Capital, PUF, Paris, 1993, p. 60<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-db6k3\">(4) idem, p. 57&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bobdo\">(5) idem, p. 84-85 (6) idem, p 59&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6n9e0\">(7) Karl Marx, Os Manuscritos de 1844, Terceiro Manuscrito, Propriedade Privada e Comunismo, em Marx, O Mundo da Filosofia, Flammarion, Paris, 2008, p.119&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7i00c\">Tenho o prazer de acrescentar como anexo o argumento preliminar a esta confer\u00eancia \u201cO que \u2018O Capital\u2019 traz \u00e0 psican\u00e1lise social\u201d. Este texto foi traduzido para o russo por Maria Karzanova.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ce que \u00ab&nbsp;Le Capital&nbsp;\u00bb apporte \u00e0 la psychanalyse sociale Traduction : Maico Fernando Costa Ce texte est celui de la conf\u00e9rence faite \u00e0 l&rsquo;Universit\u00e9 Lomonosov \u00e0 Moscou le 20&nbsp;mai 2017 pour travailler les 150 ans du Capital. \u200bIl a \u00e9t\u00e9 publi\u00e9 le 5 mai 2018 sur le webmagazine Marximum pour les 200 ans de la [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-426","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=426"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":427,"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426\/revisions\/427"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/asso-apps.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}